Educação aniquilada 

Considerando o pensamento clássico, C. S Lewis resume o conceito de educação da seguinte forma: a educação deveria ser a forma de ajudar cada indivíduo a descobrir o sentido da vida. Para Lewis, a busca por sentido faz parte da própria natureza do ser humano e, por isso, não existe outra possibilidade de educar a não ser nessa direção. Assim, educar é ajudar cada criança a encontrar a razão de sua existência. 

Ao contrário disso, entretanto, os conteúdos ensinados pela escola e pelos meios de comunicação como a televisão, o cinema e os jogos eletrônicos apresentam todas as coisas de forma caótica e destituída de qualquer sentido. Não seria este um processo de destruição acontecendo com o nome de educação? Os sistemas “educacionais” não estariam, intencionalmente, aniquilando a verdadeira natureza humana e transformando nossas crianças e jovens em seres brutalizados e, portanto, totalmente passíveis de se tornarem escravos?

Aniquilar é reduzir a nada, destruir a existência; destruir a forma ou propriedades distintivas peculiares de alguma coisa, fazendo com que a coisa específica não exista mais, como aniquilar uma floresta cortando e carregando as árvores para longe. Ainda que a madeira continue existindo, a floresta foi aniquilada. Aniquilar é destruir a estrutura (Webster, 1828). 

Ao longo do século XX, ao mesmo tempo em que cresceu o movimento de escolarização da sociedade, a educação foi se distanciando, cada vez mais, do alvo de formar pessoas íntegras, inteiras, não cindidas, não fragmentadas, não corrompidas. 

Na década de 1940, o pensador inglês C. S. Lewis expressava sua profunda preocupação com o tipo de sociedade que estava sendo formada nas escolas. Analisando certo livro didático ao qual ele chamou de Livro Verde (para não expor os autores da obra), Lewis denunciou a mediocridade e desonestidade dos materiais que estavam sendo impostos aos estudantes já naquela época. Disse Lewis: as obras são medíocres porque, na prática, não ensinam nada sobre as grandes experiências humanas do passado e são desonestas porque, em lugar de ensinar literatura e gramática, como prometem, ensinam, de forma um tanto disfarçada, uma nova visão de mundo, comprometida com o materialismo e com o vazio de sentido e ausência de valores.  Lewis fala que essas obras “extirpam” da alma da criança a possibilidade de crescimento rumo a uma vida com mais sentido. Em suas palavras: 

Ao mesmo tempo em que os livros não ensinam nada sobre literatura, extirpam de sua alma, muito antes de ter crescido o bastante para escolher, a possibilidade de ter contato com a opinião de pensadores com maior autoridade e que defendem certas experiências como sendo generosas, altruístas e humanas. (LEWIS, 2017, 1º capítulo, 8§)

A análise de livros didáticos produzidos e impostos às crianças em nossos dias, oitenta anos depois da denúncia de Lewis, faz com que as afirmações do autor inglês soem como profecias. Sob essa perspectiva, não é somente a educação que tem sido aniquilada. O que tem sido aniquilada é a mente e a alma das crianças.  

LEWIS, Clive Staples. A Abolição do Homem. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

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