O Mito da Educação Neutra

Noah Webster, em 1828, já definia a palavra “neutra” como sendo um adjetivo que significa “não engajado em nenhum dos lados, não tomando parte ativa em nenhuma das partes. É política de uma nação manter-se neutra quando outras nações estão em guerra. Indiferente, não tendo bases em favor de nenhum dos lados ou partes.”

Em educação, essa neutralidade simplesmente não existe. Não é possível qualquer defesa da neutralidade quando se deseja tirar uma criança de uma situação e conduzi-la a uma situação diferente. Se a educação fosse neutra ou não religiosa (laica) não seria possível afirmar que é melhor tirar a criança do contexto familiar e exigir que ela seja entregue aos cuidados do Estado.

Quem pode alegar neutralidade e, ao mesmo tempo, defender que é melhor para todas as crianças saírem da cama às 6 horas da manhã e passarem 4 horas por dia, 5 dias por semana, na mesma sala de aula, com a mesma professora e com o mesmo grupo de colegas?  Por que esta é a melhor coisa que a criança pode fazer com os seus melhores anos de vida?

Porque não é melhor estar em casa com pais e irmãos, sendo os pais os responsáveis por definirem um plano de estudos que considerem adequado ao seu nível de interesse e desenvolvimento? Por que uma coisa é melhor que a outra se a educação é neutra e laica?

Quem pode dizer que é melhor a criança de 4 anos estudar sobre a tribo Massai, na África, do que estudar sobre a cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul? É necessário? Sob qual pretexto?

É necessário repensar esta afirmação tida como inquestionável sobre a laicidade do Estado e neutralidade dos processos educativos.

A educação não pode ser neutra porque toda prática educativa parte de uma visão sobre o que o ser humano é e sobre o que deve ser. Quem afirma que existe uma idade mais adequada que outra para ensinar letras, cores e números para todas as crianças, não está sendo neutro, em nenhum sentido. 

As crianças não são iguais. Todos sabem disso. Qualquer pai, mãe, avós, tios ou irmãos sabem que mesmo duas crianças gêmeas não são iguais, não têm os mesmos interesses e não é nada fácil manter a atenção de duas crianças pelo mesmo tempo, na mesma atividade, por muito tempo.


Mas, a “educação neutra” obriga todas as crianças da mesma idade a serem confinadas em um mesmo local para receberem as mesmas orientações da mesma professora e do mesmo material que custou muito caro aos pais e que é transformado em lixo no final de dois meses.

A prática educativa que se apresenta como neutra é, em si mesma, profundamente religiosa, no sentido de estar fundamentada e arraigada a pressupostos que não são e não podem ser comprovados cientificamente.

A educação chamada laica é explicitamente uma educação que faz afirmações de cunho religioso, pois está fundamentada na confissão materialista ou na crença cega em uma origem materialista do Universo e da vida.

 Um exemplo de confissão arbitrária rotulada como afirmação científica é feita por um cientista francês, defensor da eugenia:

todo homem tem parentesco com todos os homens e com todos os seres vivos. Não há, portanto, direitos do homem assim como não há direitos dos tatus de três faixas ou do macaco sindáctilo, ou do cavalo que se atrela ou do boi que se come. O homem, ao perder seu privilégio de ser à parte, de imagem e semelhança de Deus, não tem mais direitos que qualquer outro mamífero. A própria ideia de direito é uma ficção. Existem apenas forças. (citado por Guillebaud, 2003, p. 189).  

Outra explícita confissão de fé no materialismo é feita por Richard Lewontin, um biólogo de Harvard:

Nós nos alinhamos com a ciência, apesar do patente absurdo de alguns dos seus constructos (…), apesar da tolerância da comunidade científica com histórias superficiais sem fundamento, porque temos um comprometimento prévio, um comprometimento com o materialismo. (…) somos obrigados pela nossa adesão à priori às causas materiais, a criar uma estrutura investigativa e um conjunto de conceitos que produzem explicações materialistas. (…) esse materialismo é absoluto, porque não podemos permitir um Pé Divino na porta (citado por PLANTINGA Jr., 2007)

Esta abordagem confessional materialista certamente produz seus impactos na vida do indivíduo, da família e da sociedade, pois contribui para a construção de numa visão de mundo na qual os valores são meras convenções sociais que podem ser descartados na medida do interesse de cada indivíduo em busca de sua própria realização.

Como é possível falar em ética ou em justiça social num contexto educativo que confessa a matéria como sendo única realidade ou a realidade suprema? Como falar em respeito ao ser humano se este tem o mesmo valor que os camundongos? Como falar sobre autorrespeito, sobre honra ou sobre ideais nobres de vida, se os jovens consideram a si mesmos como um acidente indesejável, um zero à esquerda, um ser absolutamente sem significado, sem propósito e sem limites?

Por outro lado, as escolas confessionais cristãs representam uma possibilidade de retorno à prática educativa fundamentada na convicção de que o ser humano possui uma dignidade intrínseca à sua condição de imagem e semelhança de Deus. O fato de ser percebido como a coroa da criação, o representante de Deus entre as demais criaturas, confere ao ser humano um significado e um propósito que não podem ser negligenciados pelos educadores.

As duas formas de confessionalidade produzem impactos distintos na construção da sociedade.

Embora tenha sido ensinado nas escolas brasileiras que a ciência moderna surgiu a partir da ruptura entre a razão e a religião, as pesquisas já têm mostrado que foi a educação confessional cristã a responsável pela transformação do mundo medieval num mundo moderno.  Os primeiros cientistas da era moderna eram também cristãos e buscavam conhecer o mundo criado para melhor compreender o Criador. Foram estes cristãos, direta ou indiretamente, os responsáveis pelas conquistas do mundo moderno como o desenvolvimento das artes, a liberdade de imprensa e de expressão, a democracia representativa, os direitos humanos, a educação gratuita e universal e o próprio desenvolvimento científico e tecnológico. Os países que abraçaram a Reforma Protestante no século XVI ultrapassaram rapidamente os limitados horizontes culturais da idade média e tornaram possível um mundo novo, no qual a utilização da razão e responsabilidade da consciência individual suplantaram o dogmatismo, a intolerância e o obscurantismo religioso que impedia o ser humano de manifestar os traços distintivos de sua dignidade como ser humano (sobre estes tópicos ver PEARCEY e THAXTON, 2005)

Também foi a educação confessional cristã a responsável pela criação de uma nação na qual a liberdade religiosa era valorizada e nenhuma pessoa poderia ser obrigada a professar uma fé que não era a sua. A fé não podia ser imposta e, portanto, era necessário educar, esclarecer, explicar para que cada ser humano assumisse responsavelmente sua condição de pecador, pois somente depois disso é que poderia entender que precisava de um salvador.

É ao Cristianismo que se deve a noção de culto racional. A utilização da mente racional não é de nenhuma forma, contrária à ideia da existência de um Deus criador que nos fez com capacidade de compreender este mundo e contribuir para o seu desenvolvimento. O Cristianismo reformado é o grande responsável pelo desenvolvimento da Ciência moderna, pois os reformadores, como João Calvino e outros, criam ser responsabilidade humana conhecer as obras criadas para que o Criador fosse glorificado. A educação confessional cristã nos primeiros séculos da era moderna legou ao mundo um tesouro de conhecimentos em todas as áreas da vida, de forma que somente é possível avaliar o impacto dessa prática educativa estudando a história de pessoas, famílias e países que cresceram tendo como referenciais as escolas cristãs.

Por outro lado, o impacto da educação confessional materialista tem sido sentido em todas as partes do mundo. A banalização da violência, a ausência de referenciais, o alto índice de consumo de drogas, de suicídios, abortos, e toda sorte de barbaridades mostra que a ciência não tem resposta para os problemas que criou. Cabe à educação confessional, que tem outros valores humanos, a tarefa de auxiliar a humanidade a encontrar o caminho de retorno à valorização dos seres humanos criados à imagem e semelhança de um Deus amoroso, que se importa com cada uma de suas obras criadas, que não esmaga a cana quebrada e não apaga a torcida que fumega (Isaías, 42.3).  Jovens, crianças e adultos têm vivido conforme apregoou Dostoievski: se Deus não existe, tudo é permitido. Os resultados estão nos jornais, no cinema, na música, nas atitudes corruptas dos políticos que não se importam com injustiça social e nem cogitam em sua responsabilidade moral diante da crescente distância entre pobres e ricos e entre os que não têm o mínimo para sobreviver e aqueles que enriquecem às custas da exploração humana.

Nossa sociedade é reflexo da educação confessional que ministramos às gerações que nos são confiadas. Temos crianças, adolescentes e jovens em nossas mãos. Deus nos tem confiado estas vidas e elas certamente serão impactadas com o tipo de educação que oferecermos a elas. Mas, além disso, elas exercerão impacto na vida de outras pessoas e outras sociedades no futuro. Podemos transformar o mundo se deixarmos que o Senhor nos use como instrumentos escolhidos; não apenas por meio do nosso ensino, mas principalmente por meio de nossa forma de viver.

Os educadores cristãos e toda instituição de educação confessional cristã devem viver de modo a impactar a sociedade com seu poder transformador, para que a Terra se encha do conhecimento de Deus, como as águas cobrem o mar (Isaias 11.9).   

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